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BREVE HISTÓRIA DO CLARINETE

O clarinete é a evolução da churumela (chalumeau), que era basicamente uma flauta doce com algumas modificações:

1- EMISSÃO DO SOM: por uma palheta apoiada a uma boquilha que vibra apoiada no lábio, ao invez de simplismente assoprar no bizel (formado por bico e janela)

2- PROJETO ACÚSTICO: tubo interno cilíndrico e campânula na extremidade inferior

Outra diferênça fundamental entre a flauta e a churumela é que a escala natural do instrumento é de 12 tons (escala duodécima), ao contrário da flauta que produz uma escala de 8 tons (escala de uma oitava).

EXEMPLO DE ESCALA DE UMA OITAVA

DO RE MI FA SOL LA SI DO
1 2 3 4 5 6 7 8

EXEMPLO DE ESCALA DUODÉCIMA

DO RE MI FA SOL LA SI DO RE MI FA SOL
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12

A churumela produzia SOMENTE UMA escala duodécima, e esta era sua principal limitação: a extensão.

A invenção do clarinete se deu resolvendo este problema. Johann Christoph Denner e seu filho colocaram uma chave (chamada chave de registro) no começo do tubo, em correspondência do orifício do 12° tom, e isto permitiu que a escala fosse extendida por mais 12 tons, fazendo que este novo instrumento fosse capaz de tocar 3 oitavas:

duas escalas duodécimas (12 + 12 = 24 tons)

equivalem a

três oitavas (3 x 8 = 24 tons)

Até hoje a escala natural do clarinete Ou seja, sem acionar a chave de registro) é chamada registro de chalumeau, e a escala seguinte (acionando a chave de registro) de registro de clarinete. Mais tarde recursos técnicos consentiram ao clarinete ampliar ainda mais sua extenção, possibilitando executar notas no registro agudo e agudíssimo, o que faz do clarinete hoje um dos instrumentos musicais com a maior extensão.

Abaixo, a primeira aparição gráfica do clarinete inventado por Denner (1680-1690) - um instrumento com duas chaves, e tabela de digitação das escalas dos regístros de chalumeau e de clarinete:

Em 1710 foi acrescentada por Denner a terceira chave, e por volta de 1740 o clarinete de 5 chaves já era realidade, tornando-se o padrão deste instrumento por quase um século, até que fundamentais inventos o transformaram radicalmente.

O sucesso do clarinete ancestral, não obstante as dificuldades que impunha ao interprete na execução de escalas em semitons (assim como a flauta doce, que não tem chaves para facilitar o dedilhado), si deve a algumas características que o fazem praticamente único: além de seu timbre cativante, 1- a variação da intensidade sonora é grande, e controlável pelo interprete; 2- é possível variar a altura das notas não mais somente abrindo e fechando os orifícios, mas também controlando a pressão do lábio na palheta.

São possíveis com o clarinete então as variações de altura e intensidade que constituem as nuances interpretativas e ornamentais (portamentos, vibratos, etc.) necessárias á execução da música romântica, proporcionando a plena expressão da emoção do interprete.

Foi assm o clarinete o instrumento certo na época certa.

Diversos sistemas de chaves foram inventandos no curso da história, cada um com seus lados positivos e seus defeitos. Tem porém uma tendência geral do mercado e da indústria, como no mundo da música (professores e orquêstras), que prefere limitar a variedade elegendo algumas soluções em detrimento de outras. Assim, como aconteceu por exemplo na produção de veículos automotivos, aonde de muitos motores inventados foram escolhidos para serem produzidos em série principalmente dois, o motor a gasolina e o motor a diesel, os sistemas de chaves do clarinete elegidos para produção em massa também foram somente dois, os sistemas Bohem e Albert.

Na tabela abaixo é representada a história do clarinete narrando como chegou-se ao estabelecimento do padrão de sistemas de chaves utilizados hoje.

Vejamos agora na práticaos problemas que se apresentaram na constução deste instrumento, e as soluções que com o passar do tempo foram encontradas, possibilitando ao clarinete ser hoje um instrumento facilmente controlável, de grande extenão, e de som extraordinário.

A história d clarinete começa. Usarei para contá-la exemplares da minha coleção. Notarão que nem sempre o ano de construção de cada clarinete corresponde á sua colocação na linha do tempo no que se refere á evolução tecnológica. Isto se justifica pelo fato que a evolução não é linear, e pode não haver uma imediata aceitação dos novos recursos na fabricação de instrumentos. Isto se deve aos costumes dos intérpretes,  e pelas exigências da académia. A mudança é lenta, e para acontecer não é suficiente que uma inovação tecnológica prove sua eficácia, mas que também seja compatível com a tradição de uma "casta", músicos e professores, bastante conservadora.

(página parcialmente em construção)

Um dos primeiros problemas a serem resolvidos pelos construtores deste instrumento foi reduzir a complexidade na execução dos semitons na escala cromática. Os dedos humanos são somente dez (na verdade nove, pois o polegar direito é usado somente para segurar o instrumento), portanto insuficientes para tampar tantos orifícios quantos necessários para uma escala de 12 notas e seus semitons. É evidente que mostrou-se necessária a introdução de algum recurso mecânico, e este foi a CHAVE.

A Chave é composta por um pedaço de metal fixado a uma protuberância do tubo - antigamente feita da mesma madeira do tubo - através de um eixo de metal (FOTO AO LADO, letra B)

A chave é formada de um lado do eixo por uma chapa (FOTO AO LADO, letra A) sob a qual será fixado um material macio (geralmente couro) que vedará o orifício do tubo, e do outro lado a alavanca que permitirá ao dedo do músico de aciona-la (FOTO AO LADO, letra C).

A chave está pressionada sobre o buraco, fechando-o, porquê sofre a ação de uma mola fixada nela (FOTO AO LADO, letra D).

As chaves são naturalmente em posição FECHADA para vedar o buraco em espera que a partitura diga ao interprete de executar um Bemol ou Sustenido (na escala natural do instrumento), momento no qual esta chave será aberta.

 

Descobriu-se em seguida que uma chave pode também estar em posição natural ABERTA, aguardando que o interprete a feche podendo aumentar assim a extensão do instrumento nos tons graves (FOTO AO LADO)

A evolução do clarinete começa então com o aumento do número de chaves para facilitar cada vez mais as passagens de semitons. Nascem assim os clarinetes de 5, 6, 8, até 9 chaves (raros são clarinetes pré-Müller com 12 chaves).

Este princípio básico, se levado ao extremo, vem a se deparar com outro problema: mais orifícios são abertos no tubo, mais fácil é para o ar escapar por eles provocando vazamentos ao ponto de deixar facilmente o instrumento inutilizável.

Para resolver este problema se tentou por algum tempo colocar anéis metálicos na borda interna dos buracos para proporcionar maior vedação (FOTO AO LADO, letra O). O problema porém continuava, porquê após certo uso, logo os vazamentos voltavam a aparecer.

A solução era aquela do interprete apertar cada vez mais a chave para alcançar a vedação desejada, o que porém provocava menor agilidade na execução.

Este problema tinha de ser resolvido.

 

Outro grande problema a ser resolvido era a entonação: os orifícios abertos no tubo não estão em sua posição acusticamente ideal para a execução de uma escala com perfeita entonação e intensidade constante, mas em posição compatível com a forma da mão humana, cujos dedos irão tampá-los.

Um exemplo em particular: o dedo mindinho da mão direita é mais curto e fino que os outros dedos, enquanto o esquema acústico do instrumento exigiria um orifício mais distante e mais largo dos outros. Na FOTO AO LADO vemos como a solução tecnicamente possível naquela época foi simplesmente deixar a boca do orifício mais próximo do dedo engrossando o diâmetro local do tubo de madeira.

Este problema, em definitiva, é irresolvível se não com algum recurso técnico que faça em modo de adaptar artificialmente a forma da mão á posição natural dos orifícios do instrumento, como a prolongar ou encurtar o tamanho dos dedos compativelmente ao projeto acústico do instrumento.

 

Este belo exemplar mostra a evolução das soluções tecnológicas acessórias em um clarinete cujo conceito acústico permanece o mesmo de todos aqueles anteriores ás inovações de Müller.

Na FOTO AO LADO vemos os orifícios principais: é evidente o diâmetro quase igual de todos eles, e a distância quase regular entre eles. As razões deste projeto acústico são ditadas simplesmente pela forma da mão do interprete, e não por questões acústicas.

Toquei pessoalmente este clarinete. Manter a afinação é simplesmente impossível se tocado como qualquer clarinete moderno: por vezes a nota emitida é desafinada por baixo, outras vezes por cima da frequência exata. É necessária uma compensação no dedilhado (como por exemplo acontece na emissão do Fá nas flautas doces barrocas) além de uma compensação na pressão da palheta. Cada nota exige do interprete uma "asset" único que ele terá de memorizar, entre dedilhado e pressão do lábio. Somente longos anos de treinamento prepararão o interprete para tocar este clarinete sem desafinar.

Note-se também na FOTO AO LADO o orifício do dedo mindinho da mão direita, ainda obtido com uma "chaminé" de madeira (como no clarinete acima apresentado) para aproximá-lo ao dedo do interprete.

 

INOVAÇÕES:

1) na FOTO AO LADO, as chaves feitas de alpaca (liga de metal mais rígido e indeformável que o latão)

ainda os eixo são de feitos por uma barra do mesmo metal

ainda as molas - do mesmo material que as chaves - são parafusadas ás próprias chaves.

2) na FOTO AO LADO, as colunetas são de metal parafusadas no corpo, não mais de madeira.

3) na FOTO AO LADO, a disposição, agora definitiva, desta dupla de chaves. Todos os clarinetes a partir de agora terão esta dupla assim posicionada, mesmo que em seguida tenham sido "automatizadas" (opção que permite com um único movimento abrir as duas chaves ao mesmo tempo através do cruzamento das hastes - falarei sobre isto no clarinete seguinte).

 

4) na FOTO AO LADO, chave de registro invertida (evita a obturação do orifício por acúmulo de água no fundo do interior do tubo. O orifício é aberto na parte superior do tubo, e não mais na parte inferior, aonde ha o escorrimento por gravidade da água. A água se cria no interior do tubo pela condensação do ar impedido no interior do instrumento pelo assoprar do músico.
5) na FOTO AO LADO, a invenção mais importante: a SAPATILHA.

Com este recurso foi possível solucionar o problema do vazamento de ar pelos orifícios, e produzir assim um clarinete com 12 chaves.

Falarei em detalhes desta genial invenção na apresentação do clarinete seguinte.

 

Em 1809-10 nasce o clarinete de 13 chaves, obra revolucionária de Iwan Müller (1786-1854), o maior salto evolutivo deste instrumento e base propelente de toda evolução sucessiva.

Müller teve não uma, mas duas idéias geniais: A primeira começou a solucionar o problema da relação física conflitual entre a mão do interprete e o projeto acústico do clarinete. A segunda foi o invento de uma tipo de conjunto chave/sapatilha que resolvesse o problema dos vazamentos em clarinetes com muitas chaves.

A solução do primeiro problema possibilitou colocar os orifícios em posição mais natural, proporcionando uma entonação mais precisa em mais de um registro. Isto facilitou em uma só vez o dedilhado - não precisando mais esticar exageradamente os dedos das mãos - e a embocadura - não precisando mais compensar exageradamente os erros de entonação do instrumento.

Na FOTO AO LADO podemos observar como o dedo mindinho da mão direita foi "prolongado" alguns centímetros através de um novo tipo de chave, em posição natural ABERTA como o era o orifício da nota grave dos instrumentos anteriores. Müller deve ter simplesmente se perguntado: porquê tinha de ser mesmo um dedo a fechar um orifício, e não algo diferente, por exemplo uma chave? Este dilema de solução aparentemente simples, demorou quase um século para ser resolvido...

 

Este recurso foi também aplicado em outros instrumentos. O sistema Siccama (FOTO ABAIXO), inventado em 1842, conseguiu pela primeira vez afinar uma flauta em todos os registros, utilizando este particular tipo de chave que permitiu colocar os orifícios em posição acusticamente perfeita.

O segundo problema, a vedação perfeita dos orifícios para aumentar o número de chaves sem prejudicar a coluna de ar do instrumento, exigiu uma solução um pouco mais complexa: Müller inventou a Sapatilha.

A sapatilha trabalha com o conceito do COLCHÃO DE AR: ao apertar uma bexiga, como o ar interno não tem para onde ir pressiona as paredes internas da bexiga na tentativa de encontrar um novo equilíbrio com a consequente modificação da forma da bexiga. A sapatilha de Müller, ao ser pressionada pela chave contra os aros do orifício, preenche o espaço em sua volta moldando-se á forma do aro, vedando-o com perfeição.

Para construir esta sapatilha pegou um material impermeável muito fino e macio (primeiramente couro, depois intestinos de animal), o encheu de feltro de lã bem macio, e amarrou a extremidade formando uma "bolinha", como uma pequena bexiga. Para que a chave pudesse conter esta bolinha, Müller modificou-a moldando a extremidade que irá apertar a sapatilha na forma de meia-esfera. Nasce assim o COPINHO moderno das chaves. Esta forma arredondada primordial é chamada de saltspoon keyhead (cabeça de chave "colher de sal"), sucessivamente modificando-se levemente, diminuindo sua curvatura em consequência da menor espessura das sapatilhas modernas até assumir a forma atual, ligeiramente arredondada ou ligeiramente cônica.

Na FOTO AO LADO vemos nosso belo clarinete com sua bela chave com saltspoon keyhead contendo a mais bela ainda sapatilha feita sob o primeiro design de Iwan Müller. Em baixo na foto, a parte posterior da sapatilha retirada de sua chave (note-se o barbante amarrando o revestimento), e a sapatilha aberta para mostrar sua parte interna.

 

Na FOTO AO LADO vêm-se também outras inovações deste clarinete: uma guia de metal (a seta a indica) fixada ao corpo do clarinete para guiar a chave na posição exata em cima do orifício, para evitar que ao ser acionada pelo dedo, nem sempre com força perpendicular á excursão natural da chave, se force o eixo de fixação da chave criando com o passar do tempo, um jogo.

Outra melhoria é o eixo com rosca (a seta a indica), permite uma fixação mais precisa da chave á coluneta. Este porém pode oxidar, e eu pessoalmente ainda acho a barrinha de alpaca ou latão, o melhor sistema para fixar as chaves ás colunetas.

As molas das chaves já são feitas com material diferente, o aço, mais apropriado para esta função (a seta a indica).

 

Outra importante inovação foi o sistema automático de chaves mostrado na FOTO AO LADO. As chaves deste clarinete não usam ainda as molas tipo agulha presas ás colunetas, invento de L. A. Buffet em 1837, mas sim ainda as mesmas molas fixadas ás chaves usadas no inteiro instrumento.

Este recurso será usado em seguida em TODOS os clarinetes, independentemente do sistema ser Albert, Bohem ou Öhler.

 

 

...TO BE CONTINUED...

até logo!